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TRECHO DO LIVRO:
1879
Venetia conduziu o cavalo pela trilha cercada de árvores, que terminava próxima ao estábulo. O garoto que ela contratara para cuidar dos cavalos veio correndo em sua direção assim que a viu. — Fez um bom passeio, lady Venetia? — Oh, Trovão esteve esplêndido hoje — respondeu ela, com um sorriso, acariciando a crina do belíssimo cavalo negro. — Acho que ele já estará preparado para uma caçada no inverno. — Pode ter certeza disso — anuiu o garoto. — Ele está ficando cada dia mais resistente, desde que passou a ser seu, milady. — Devo isso a você, John. Tem cuidado muito bem de Trovão. O garoto sorriu, satisfeito, conduzindo o cavalo para o interior do estábulo. Venetia suspirou alto, lembrando-se do tempo em que seus pais ainda eram vivos. Seu pai adorava cavalos e, na época, havia cerca de doze deles no estábulo. Ela sentira muito quando tivera de vendê-los, para diminuir as despesas. Porém, fizera questão de manter Trovão, mesmo que para isso tivesse de deixar de comer para alimentá-lo. Ao menos lhe restava a alegria de cavalgar todas as manhãs pela floresta próxima à propriedade. A casa parecia muito quieta e vazia, comparada à época em que os pais moravam com ela. Os três compartilhavam a companhia não apenas dos Johnson, que continuavam a trabalhar na propriedade, mas também de duas arrumadeiras e de um rapaz que ajudava o mordomo. Aquela fora uma época maravilhosa, pensou ela, enquanto tirava as botas de montaria e calçava os sapatos que deixara no hall. Seus pais costumavam dar festas animadas, mas tudo que restara fora o oferecimento de pequenas reuniões para os amigos, de vez em quando. Tinha noção de que precisava economizar o pouco dinheiro que lhe ficara como herança. Além disso, estava evitando contato com os amigos da família, por não querer que sentissem pena dela. Tinha certeza de que, por trás, todos diziam: "Pobre, Venetia... Deve estar se sentindo muito sozinha naquela casa enorme, sem ninguém para conversar". O desjejum estava servido na saleta ao lado da cozinha. Johnson preferia servi-lo ali, em vez de caminhar até a sala de jantar, no final do corredor. Certa vez, ao chegar de uma cavalgada matinal, Venetia ouvira sem querer uma conversa entre ele e a esposa. — O problema com esta casa é que ela foi feita para abrigar uma família, e não uma dama sozinha — dissera ele. — Mas é a herança que ela recebeu — contestara a sra. Johnson. — Seria uma bênção se a menina se casasse. — Se ao menos tivéssemos vizinhos mais próximos... Tenho certeza de que se a casa fosse mais ao sul, a essa altura lady Venetia estaria cheia de pretendentes ou até mesmo casada. Os empregados não entendiam por que a jovem patroa resolvera se isolar tanto. Por outro lado, sabiam que o dinheiro que lorde Arnold ganhava, como conselheiro de várias empresas, cessara logo depois de sua morte. Lady Sophie fora dona de uma generosa herança recebida dos pais, mas ela e o marido haviam gastado boa parte do dinheiro reformando a mansão e investindo na educação da filha. Somente depois que os dois morreram foi que Venetia descobriu que a quantia gasta com sua educação fora bem mais alta do que ela poderia imaginar. Felizmente, porém, restara-lhe o prazer de ter uma cultura bem acima da média das damas de sua idade. Venetia tivera a sorte de ter um avô que colecionava livros clássicos e raros, e fora com eles que ela obtivera boa parte de sua rica cultura geral. Sempre adorara ler e nem mesmo a enorme quantidade de livros da biblioteca de seu avô parecia suficiente para saciar sua sede de conhecimento. Entretanto, depois que ficara sozinha na mansão, perdera um pouco do ânimo que tinha antes. Embora a propriedade estivesse na família havia cinco gerações, Venetia chegara a pensar em vendê-la. Porém, logo descartara a idéia, sabendo que seria um insulto à memória de seus pais.
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